A história de Henrietta Lacks é tão surpreendente quanto milagrosa. Negra, pobre e plantadora de fumo no sul do estado da Virgínia,...

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2017

10 fatos sobre as células imortais de Henrietta Lacks

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A história de Henrietta Lacks é tão surpreendente quanto milagrosa. Negra, pobre e plantadora de fumo no sul do estado da Virgínia, nos Estados Unidos, Henrietta foi diagnosticada com um tipo de câncer do colo do útero extremamente agressivo.

Os cientistas tinham tentado cultivar tecido humano em laboratório por muitos anos, sem sucesso. Mas depois de realizarem uma biópsia no tumor de Henrietta, a resposta finalmente veio. Os acontecimentos que se seguiram criaram um efeito cascata tão grande que o mundo da medicina nunca foi o mesmo.

10. O tumor de Henrietta produziu as primeiras células humanas imortais cultivadas em cultura

Em janeiro de 1951, Henrietta foi até a Clínica Ginecológica Johns Hopkins depois que começou a sangrar profusamente. Ela foi diagnosticada com câncer do colo do útero, teve uma pequena amostra retirada do seu tumor e recebeu tratamento por radiação e cirúrgico. Infelizmente, o câncer de Henrietta se espalhou tão rapidamente que nada poderia ser feito para salvá-la. Ela morreu em outubro daquele ano.

A amostra de tecido de Henrietta foi enviada a George Otto Gey, o chefe de pesquisa de cultura de tecidos na Universidade Johns Hopkins. Durante anos, Gey tentou produzir uma linha de células que poderia viver eternamente em um ambiente de laboratório – obviamente, sem sucesso.

Por fim, ele conseguiu usando sua própria técnica de cultivo. Ela envolvia banhar as células num fluido de plasma de frango, extrato de embrião bovino e soro do cordão da placenta humana. Após um período de observação, Gey descobriu que as células de Henrietta estavam se multiplicando rápida e continuamente.


Em menos de dois anos, amostras de tecido de Henrietta foram embaladas com cuidado e distribuídas em todo o mundo. As células foram chamadas células “HeLa”, usando as duas primeiras letras do primeiro e último nome de Henrietta. Até o momento, o número de células HeLa cultivadas se estendem por mais de 105 milhões de quilômetros, capaz de circundar a linha do equador da Terra mais de três vezes.

Apesar de serem cancerosas, as células HeLa comportam-se como células normais do corpo. Isso permitiu aos cientistas aprender como elas reagiam em determinados ambientes. Possibilidades de pesquisa que um dia estavam fora dos limites ou eram antiéticas de repente se tornaram uma realidade à medida que os cientistas começaram a entender como a divisão celular ocorre ou como um vírus afeta uma célula.O fim trágico de uma mulher foi o início de um futuro notável na ciência e na medicina.

9. Suas células foram retiradas sem o seu conhecimento ou consentimento

Na década de 1950, não era considerado antiético usar alguém em um estudo científico sem a sua permissão ou fornecer tratamento médico não autorizado. Não existiam leis para proteger os direitos de pessoas como Henrietta, que tiveram sua privacidade violada pelos pesquisadores.
Gey inicialmente atribuiu o milagre científico para uma mulher imaginária chamada “Helen Lane” na tentativa de esconder a verdadeira identidade de Henrietta. Apenas muitos anos mais tarde a verdade veio à tona.

Embora Henrietta absurdamente não tenha recebido o reconhecimento merecido naquela época, Gey ao menos se dedicou a buscar avanços verdadeiros com as células HeLa. Ele teria dedicado sua vida à pesquisa da cultura celular, chegando a usar a sua família e a si mesmo em seus estudos.

Sua única esperança para as células era de que elas tivessem o impacto científico que realmente tiveram na época. Embora Gey tenha passado por dificuldades financeiras, ele nunca vendeu nenhuma das amostras de tecido de Henrietta. No entanto, muitas empresas e indústrias iriam, mais tarde, lucrar a partir de células HeLa.

8. O caso das células imortais era um mistério para a medicina

Durante anos, os cientistas se confundiram quanto às razões pelas quais as células cancerosas de Henrietta se replicavam de forma rápida e agressiva sem morrer. Alguns propuseram que a causa deste comportamento poderia ter sido uma combinação de vírus do papiloma humano (HPV) e o DNA de Henrietta. Além disso, verificou-se que ela tinha sífilis, o que resulta em um crescimento agressivo de células cancerosas devido a um sistema imunológico enfraquecido.

Mesmo assim, os cientistas ainda levaram muitas décadas para chegar perto de uma explicação que possa realmente ser considerada: não foi até 2013 que uma resposta provável veio à tona.De acordo com um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Washington, o genoma alterado do HPV (que contém genes do câncer próprios) inseriu-se perto de um oncogene (um gene que pode causar câncer quando alterado) no genoma de Henrietta. Isso ativou o oncogene e causou a rápida replicação de células HeLa no corpo de Henrietta.

Segundo os cientistas, o estado das células HeLa é particularmente ruim, decorrente de uma série de fatores negativos e imprevisíveis. “O vírus HPV se inseriu em seu genoma no que poderia ser a pior maneira possível”, afirmou Andrew Adey, um dos autores do estudo.

7. A família Lack não tinha conhecimento sobre as células HeLa

Ainda que as células de Henrietta tenham ajudado a salvar milhões de vidas, nem ela nem sua família se beneficiaram disso.

Inicialmente, sua família não tinha ideia de que suas células tinham sido utilizadas nas pesquisas que mudaram os rumos da ciência. Quando Bobette Lacks, nora de Henrietta, coincidentemente encontrou um pesquisador do câncer anos mais tarde, ela descobriu que as células de Henrietta estavam crescendo desde a sua morte, em 1951.

Infelizmente, os tratamentos que foram desenvolvidos usando células HeLa estavam fora de alcance para os Lacks. Como muitos outros sem seguro-saúde, a família não podia pagar por este tipo de cuidado. O marido de Henrietta tinha câncer de próstata, a sua filha mais velha teve problemas de desenvolvimento e outra filha teve uma série de problemas médicos que não podiam ser tratados sem os recursos necessários. A família que deveria ter sido compensada pelo papel que Henrietta teve simplesmente não foi.

Em uma reviravolta inesperada do destino, a família Lacks finalmente recebeu alguma reparação em 2013 pela contribuição de sua matriarca – mais de 60 anos depois de sua morte. Uma equipe de pesquisa no Laboratório Europeu de Biologia Molecular tinha sequenciado e publicado o genoma de Henrietta sem o consentimento de sua família.


Ao ouvir sobre a publicação, os netos de Henrietta sentiram que estas novas pesquisas violavam ainda mais o histórico médico particular de sua família. Eles tomaram uma posição e solicitaram que os cientistas recolhessem seu estudo.

Infelizmente, ainda que fosse algo justo para a família e para a memória de Henrietta, tal decisão teria prejudicado a pesquisa médica. Então, a família finalmente concordou em permitir a publicação de grande parte das informações sobre o genoma da matriarca.

6. As células HeLa foram fundamentais para a pesquisa do câncer precoce

Graças a estudos feitos com células HeLa, os pesquisadores têm aprendido muito sobre o funcionamento das células cancerosas. Descobriu-se que as células de Henrietta ativaram uma enzima chamada telomerase utilizada para reparar o DNA danificado. Isto significa que as células HeLa proliferavam e prosperavam em oposição às células normais, que simplesmente morrem após um curto período de tempo.

Os cientistas também aprenderam que a telomerase incentivava o alongamento dos cromossomos. Na divisão celular humana normal, os telômeros (as pontas dos cromossomos) tornam-se mais curtos após cada divisão. Depois de algum tempo, as células são destruídas, porque os telômeros já não conseguem se encurtar.

Nas células HeLa, no entanto, este processo é um pouco diferente. Como a telomerase é hiperativa nestas unidades estruturais, os telômeros não se esgotam. A divisão contínua das células cancerosas que resulta disso tornou a linhagem de células de vital importância para estudos de câncer – mesmo hoje, tantas décadas e avanços tecnológicos depois.

Estas descobertas levaram a novas pesquisas que trouxeram avanços em tratamentos de câncer.

Células HeLa
Células HeLa

5. As células HeLa ajudado a progressão da pesquisa genética

Em 1953, um geneticista do Texas estava trabalhando com as células HeLa quando uma substância química acidentalmente caiu sobre elas. No entanto, este potencial desastre acabou por ser uma bênção surpresa. Após observação, o cientista percebeu que os cromossomos dentro das células aumentaram de tamanho e, essencialmente, se desembaraçaram, tornando-se mais visíveis – cromossomos são compostos por longas fitas duplas de DNA, totalmente emboladas.

Dois anos mais tarde, Joe Hin Tjio e Albert Levan desenvolveram uma técnica melhorada que levou à descoberta de que as células humanas normais definitivamente tem apenas 46 cromossomos. Antes desta descoberta, tinha sido incrivelmente difícil contar os cromossomos devido ao pequeno tamanho e estrutura compacta do DNA.

Até então, tinha sido amplamente aceito que os humanos tinham 48 cromossomos, da mesma maneira que chimpanzés e gorilas. Graças a Tjio e Levan, esta teoria foi dissipada. Este achado foi monumental porque permitiu o diagnóstico de doenças genéticas, já que agora podemos contar quando as células de alguém têm mais ou menos de 46 cromossomos.

4. Pesquisas com as células HeLa levaram à criação da vacina contra o câncer do colo do útero

Em 2008, o virologista alemão Harald zur Hausen foi homenageado com o Prêmio Nobel por sua descoberta decisiva de que duas cepas de HPV estavam diretamente ligadas ao câncer cervical. Na década de 1970, acreditava-se que o herpes simplex causava o câncer do colo do útero.

Mas zur Hausen, que trabalhava com a linha celular HeLa, descobriu que os genes de certas estirpes do vírus, incluindo HPV16 e HPV18, manobravam no interior das células do colo do útero e causavam a replicação celular anormal.

Anos antes do sucesso de zur Hausen, os cientistas estavam buscando uma vacina contra o HPV que impedisse o vírus e reduzisse o risco do câncer cervical. Durante os anos 1990, os cientistas associados ao Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos identificaram certas proteínas na parte externa do vírus que eram semelhantes ao próprio vírus. Este foi um importante avanço, uma vez que descobriu-se que as proteínas estimulam o crescimento de anticorpos.

Toda esta pesquisa levou à formulação de Gardasil e Cervarix, duas vacinas contra o HPV que estão no mercado hoje. Atualmente, meninas de 9 a 11 anos recebem a vacina, que deve ser dada em duas doses, pelo SUS no Brasil.

3. As células HeLa contaminaram outras culturas de células em todo o mundo

Em 1966, o geneticista Stanley Gartler estava trabalhando com tecidos de amostra quando notou algo estranho. Todas as células continham uma enzima chamada glicose-6-fosfato desidrogenase-A (G6PD-A).

Gartler estava confuso, porque ele sabia que as amostras de tecidos foram retiradas de caucasianos e até mesmo animais. A G6PD-A, por sua vez, é uma enzima que só é encontrada em seres humanos e quase exclusivamente em afro-descendentes. Isto era preocupante porque significava que as amostras de Gartler, assim como muitos outras, estavam contaminadas.

De acordo com Gartler, a culpada era a linhagem de células HeLa. Depois das dúvidas iniciais de outros cientistas – que temiam a perda potencial de milhões de dólares -, as suspeitas de Gartler foram confirmadas. Os cuidados adequados não tinham sido tomados para evitar que as amostras fossem contaminadas à medida que eram transferidas entre laboratórios. Milhões de dólares aplicados nas pesquisas acabaram indo pelo ralo.

Eventualmente, descobriu-se que as células HeLa podem viajar através do ar – aumentando exponencialmente o risco de contaminação. Naquela época, os laboratórios não eram devidamente equipados para pará-las, o que causou o prejuízo milionário e perda do tempo investido nas pesquisas que acabaram contaminadas. Felizmente, desde então foram feitas melhorias para inibir tais erros em técnicas de cultura de células.

2. O envolvimento das células HeLa contribuiu para criar a vacina contra a poliomielite

Jonas Salk era um pesquisador da Universidade de Pittsburgh cujos anos de trabalho incansável levaram ao fim da epidemia de poliomielite que varreu os EUA nos anos 1950 – o Brasil está livre da doença há 25 anos. Antes que a vacina contra a poliomielite de Salk pudesse ser concluída, porém, ele precisava de grandes quantidades de amostras de tecido para o seu trabalho.


Por sorte, a Fundação Nacional para a Paralisia Infantil dos Estados Unidos estava disposta a financiar uma instalação no Instituto Tuskegee especificamente voltada para a produção de células HeLa. Uma vez que tinha acesso às células cancerosas, Salk foi capaz de realizar testes em grande escala.

Em 26 de abril de 1954, os testes começaram em quase dois milhões de crianças norte-americanas, finlandesas e canadenses. Quando os resultados voltaram, as notícias eram as melhores possíveis – a grande vacina revolucionária era segura e eficaz. Desde então, a vacina se tornou uma parte essencial do cuidado de saúde infantil em todo o mundo.

1. Alguns cientistas sugerem que as células HeLa podem ser uma nova espécie

De acordo com o biólogo evolucionista Leigh Van Valen, da Universidade de Chicago, as células HeLa não têm nenhuma conexão com as pessoas. Van Valen e outros cientistas afirmaram que as células são microbianas em sua natureza, não têm qualquer semelhança com as células humanas e devem ser consideradas como uma espécie inteiramente nova.

Agora vem a parte mais incrível: acredita-se que as células HeLa evoluíram geneticamente ao longo do tempo para se adaptar ao seu ambiente – a placa de Petri – como resultado da seleção natural. Há quem diga que atualmente há novas linhagens de células HeLa que surgiram nos últimos anos.
Um outro estudo, de professores da Universidade da Califórnia em Berkeley, sugere que o processo pelo qual as células cancerosas são geradas é a base para a criação de uma nova espécie. O mesmo artigo, publicado na revista “Cell Cycle”, também faz menção a tumores que devem ser pensados como “organismos parasitas”.

Pesquisadores já chegaram até mesmo a propor um novo nome científico para as células HeLa – Helacyton gartleri – em homenagem a Stanley Gartler, que reconheceu o quão bem sucedidas as células HeLa realmente eram. [Listverse, EBC, G1]


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